Interpretar não é apenas entender: os caminhos da leitura de um texto

Introdução
Interpretar um texto não significa apenas compreender o significado das palavras ou localizar informações escritas de maneira explícita. A leitura envolve um processo de construção de sentidos no qual o leitor relaciona aquilo que está escrito ao contexto, aos conhecimentos que já possui e às pistas deixadas pelo próprio texto.
Por isso, duas pessoas podem compreender perfeitamente todas as palavras de um enunciado e, ainda assim, chegar a interpretações diferentes. Ler é também perceber relações, reconhecer, pressupostos, realizar inferências e observar como determinadas escolhas linguísticas contribuem para aquilo que o texto comunica.
Compreender e interpretar não são exatamente a mesma coisa
A compreensão está relacionada, em um primeiro momento, à identificação das informações apresentadas pelo texto. Se uma narrativa informa que uma personagem saiu de casa às seis horas, por exemplo, essa informação pode ser localizada diretamente.
A interpretação avança um pouco mais. Ela procura compreender o que pode ser construído a partir das informações fornecidas. O leitor passa a perguntar: por que determinada informação foi mencionada? Que relação ela estabelece com as demais? O que o texto sugere sem declarar diretamente?
É nesse movimento que surgem as inferências.
O papel das inferências
Inferir é chegar a uma informação que não está necessariamente escrita de maneira explícita, mas que pode ser deduzida a partir dos elementos presentes no texto.
Observe:
“Marina entrou em casa, fechou rapidamente as janelas e recolheu as roupas do varal. Minutos depois, ouviu-se o primeiro trovão.”
O texto não afirma diretamente que uma chuva estava se aproximando. Entretanto, a sequência de ações de Marina, associada ao trovão, permite ao leitor construir essa interpretação.
A inferência, portanto, não é um palpite. Ela precisa encontrar sustentação no próprio texto. Esse princípio é fundamental para distinguir uma interpretação possível de uma conclusão sem fundamento textual.
As palavras também orientam a leitura
Nenhuma escolha linguística é completamente indiferente à construção de sentido. Substantivos, adjetivos, verbos, advérbios, conectivos e até determinados sinais de pontuação podem alterar a maneira como uma mensagem é recebida.
Compare:
“Ele respondeu à pergunta.”
“Ele finalmente respondeu à pergunta.”
A palavra finalmente acrescenta uma informação importante. Ela sugere que a resposta era esperada, demorou a acontecer ou ocorreu depois de alguma dificuldade. Uma única palavra modifica a interpretação do enunciado.
O leitor atento, portanto, não observa apenas o que foi dito, mas também como foi dito.
Contexto e construção de sentidos
Uma mesma expressão pode assumir sentidos diferentes dependendo da situação em que aparece. Ironia, humor, ambiguidade e linguagem figurada são exemplos claros disso.
Se alguém observa uma chuva intensa pela janela e diz “Que belo dia para um passeio!”, interpretar literalmente a frase pode levar a uma compreensão inadequada. O contexto permite perceber uma possível ironia.
Isso mostra por que interpretar não consiste em atribuir qualquer significado ao texto. O leitor possui participação ativa na construção do sentido, mas sua interpretação precisa dialogar com elementos linguísticos, contextuais e discursivos que possam sustentá-la.
Ler é formular perguntas
Uma estratégia importante para desenvolver a interpretação é abandonar a leitura puramente automática e começar a interrogar o texto:
Quem fala? Para quem? Em qual contexto? Por que determinadas palavras foram escolhidas? Que informações estão explícitas? O que está implícito? Que relações existem entre as partes do texto? Há alguma mudança de sentido se determinada palavra for retirada?
Essas perguntas transformam a leitura em investigação.
Interpretar bem não significa descobrir uma mensagem secreta escondida pelo autor. Significa construir sentidos de maneira fundamentada, observando as pistas oferecidas pela linguagem.
A leitura além das palavras
Quanto mais desenvolvemos nossa capacidade de interpretar, mais percebemos que um texto não é apenas uma sequência de frases. Ele é uma rede de relações entre linguagem, contexto, intenção comunicativa e conhecimento de mundo.
Aprender a interpretar é, portanto, aprender a olhar para a linguagem com maior atenção. É compreender aquilo que está escrito, perceber aquilo que está sugerido e, principalmente, saber explicar quais elementos do texto sustentam determinada leitura.
Esse último ponto talvez seja um dos mais importantes: uma boa interpretação não termina em “eu entendi assim”. Ela consegue responder também:
“O que, no texto, permite que eu entenda assim?”
Valdeci Jose
Alicerce Editorial



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